Além da pele
R$ 65
Além da pele foi originalmente concebido como resposta a questões que surgiram nas três conferências que fiz no Instituto de Estudos Integrais da Califórnia no inverno de 2015, sobre o significado do corpo e da política corporal no movimento feminista dos anos 1970 e no meu próprio trabalho teórico. Essas conferências tiveram múltiplos propósitos: enfatizar a contribuição do feminismo da década de 1970 para uma teoria do corpo, agora tão subestimada pelas novas gerações de feministas; reconhecer, ao mesmo tempo, sua própria incapacidade de conceber estratégias que pudessem transformar significativamente as condições materiais da vida das mulheres; e apresentar o arcabouço que desenvolvi em Calibã e a bruxa, de modo a examinar as raízes das formas de exploração às quais as mulheres têm sido submetidas ao longo da história da sociedade capitalista. […]
Quatro perguntas se destacaram como essenciais para este volume. Em primeiro lugar: “mulheres” ainda é uma categoria necessária para a política feminista, considerando a diversidade de histórias e experiências que esse rótulo abarca, ou devemos descartá-la, como propuseram Judith Butler e outras teóricas pós-estruturalistas? De forma mais ampla, devemos rejeitar qualquer identidade política como inevitavelmente fictícia e optar por unidades construídas com base em fundamentos puramente oposicionistas? Como devemos avaliar as novas tecnologias reprodutivas que prometem reestruturar nossa aptidão física e reconstruir nosso corpo para que se adapte melhor a nossos desejos? Será que essas tecnologias fortalecem o controle que temos sobre nosso corpo ou o transformam em objeto de experimentação e de lucro a serviço do mercado capitalista e da profissão médica? […]
Reivindicar nosso corpo e nossa capacidade de decidir sobre nossa realidade corporal começa por afirmar o poder e a sabedoria do corpo tal como o conhecemos, uma vez que ele se formou durante um longo período, em constante interação com o planeta Terra […]. É a imagem de um corpo que reúne o que o capitalismo dividiu, um corpo não mais constituído como uma mônada leibniziana, sem janelas e sem portas, mas que se move em harmonia com o cosmos, em um mundo no qual a diversidade é uma riqueza para todos e um terreno de comunhão, e não uma fonte de divisões e antagonismos.
— Silvia Federici, na Introdução
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